História do Sul da Ilha - Parte 8

PANAIR (Pan Americana Airways) – PANAIA para os nativos do Campeche e arredores.

O ano de 1929 passa para a história mundial como o ano da maior crise econômica dos Estados Unidos de todos os tempos, denominada de Crack (Quebra) da Bolsa de New York.

No entanto para o Brasil o ano de 1929 foi decisivo na história da aviação brasileira. Além dos aviões da Compagnie Génerale Aeropostale (Aviação Francesa) uma outra empresa aérea passa a operar no Brasil, recebendo os primeiros aviões de cargas e passageiros. Trata-se da empresa norte americana denominada de NYRBA do Brasil (Nova York – Rio – Buenos Aires) formada pelas iniciais das cidades de origem e destino dos vôos.

Além desta rota internacional, esta empresa tinha também por objetivo operar no espaço aéreo brasileiro, os chamados vôos nacionais. Porém o Governo Brasileiro, tendo na Presidência da República Washington Luis, por considerar a aviação aérea uma questão de Segurança Nacional determinou que só empresas criadas ou subsidiadas no Brasil poderiam obter a concessão para executar esse tipo de serviço. Então os americanos criaram uma Empresa denominada de PANAIR do Brasil SA (Pan Americana Airways), com escritório no Rio de Janeiro e com capital americano.

No ano de 1930 a PANAIR é autorizada a operar as rotas litorâneas do Belém do Pará à cidade do Rio Grande, no Rio Grande do Sul, com seus Hidroaviões (aviões que pousam sobre as águas). Os Hidroaviões da companhia passaram a pousar em Florianópolis nas águas da Baia Sul, próximo a ponte Hercílio Luz.

No ano de 1937 os aviões da PANAIR passam a fazer vôos de terra, ou seja, aterrissagem em pistas de solo. É a partir deste ponto da história que o Campeche torna-se protagonista. Em Florianópolis os aviões aterrissam no Campo da Aviação Francesa no Campeche até o fim da década de 1940 quando passam a aterrissar em uma pista construída pela Aeronáutica nos Campos da ressacada também conhecida como Campo da Monta, propriedade da Base Aérea de Florianópolis, denominada de Centro de Aviação Naval, existente ainda hoje. A partir de 1955 sob a administração do DAC (Departamento da Aviação Civil) e posteriormente em 1974, agora sob a administração da Infraero esta pista torna-se a base do atual Aeroporto Internacional Hercílio Luz no bairro Carianos.

Os primeiros aviões da Panair, lembrando que os nativos, por dificuldades na pronuncia, chamavam de PANAIA, eram bimotores e em sua cauda havia um gancho, que ao aterrissar na pista de grama se prendia a um cabo de aço fincado nas extremidades laterais da pista demarcada, fazendo-o parar totalmente.

Quando a Empresa americana Panair passou a utilizar-se do Campo de Aviação Francesa esta passou a iluminar melhor as laterais da pista demarcada e também o Morro do Lampião, melhorando a visibilidade de seus vôos noturnos. Desde a base sul até o cume do Morro na Pedra do Urubu, passou-se a acender quatorze lampiões. Para a tarefa foi agregado na equipe o nativo Arcelino Nunes (pai do Valdir, Darço, Zequinha, Maria do Haroldo...).

Seu Manoel Anazario Martins (Maneca do Anazario), embora não tenha trabalhado na Panair e nem no campo de aviação francesa, comenta aos seus 92 anos de idade que era uma festa ver o Campeche totalmente às escuras e o morro ornamentado com o brilho das luzes do lampião. Ele fala isso com um semblante de saudade, lembrando de seus tempos de mocidade.

Seu Maneca do Anazario lembra ainda que a grama do campo de aviação era cortada por Abel Tavares que guiava uma carroça, que trazia presa uma hélice, puxada por dois cavalos, demarcando desta forma o local exato do pouso da aeronave. Outro nativo que trabalhou na Empresa Panair foi Aristides Costa, cujo crachá de identificação ainda encontra-se preservado e muito bem guardado por uma de suas filhas.

A PANAIR construiu uma base telegráfica de comunicação e controle de seus vôos no Campeche, levando em consideração a logística da Estação Telefônica do Cabo Submarino existente neste bairro. Desta base Telegráfica eram registradas as previsões, chegadas e partidas das aeronaves da Companhia. Estou me referindo a uma construção existente ainda hoje e com sua fachada original preservada, de propriedade da família de Domingos José da Cruz (Domingão) na rua Auroreal, conhecida como rua do Baiá em referência a um supermercado com este nome.

Na verdade havia duas construções: A maior que servia como casa de Recepção e Telégrafo, onde chegava a comunicação dos vôos. Uma outra de menor tamanho, nos fundos, onde eram armazenadas as baterias necessárias ao funcionamento de toda estrutura, pois o bairro não era servido com linhas de eletricidade (luz elétrica). Esta casa menor não existe mais.

A Estação era uma casa grande, construída com tijolos vindos de uma olaria de Joinville, segundo Timóteo Alexandrino Daniel, e que possuía o dobro do tamanho de um tijolo maciço comum. A casa estava assentada sobre elevados alicerces, imponente, destacando-se entre as poucas residências existentes ao longo do bairro. Ao lado da Casa foi construído um profundo poço de água potável, composto por uma bomba manual de sucção, que abastecia a Base Telegráfica. Em período de maior estiagem os moradores dos arredores se utilizavam desta água numa relação de muita cortesia.

Em 1945 os dois candidatos favoritos a presidência do Brasil, General Eurico Gaspar Dutra (PSD/PTB) e o Brigadeiro Eduardo Gomes (UDN) aterrissaram no Campo de Aviação Francesa no Campeche em campanha eleitoral na cidade.

Uma curiosidade é que o Comitê Eleitoral do Brigadeiro Eduardo Gomes vendia docinhos de chocolate com leite condensado para levantar fundos para a campanha. Vendiam na Capital do Brasil os docinhos que passaram para a culinária brasileira a ser conhecidos como “brigadeiro”, muito apreciados nas festinhas de aniversários da criançada.

Em 1946, influenciados pelo Presidente da República Getúlio Vargas, com sua política do Nacionalismo, mesmo não estando mais na presidência do Brasil, os empresários brasileiros passam a comprar as ações da PANAIR, tornando-se uma empresa, agora com mais de 76% de capital nacional.

Foi pela Panair que a Seleção Brasileira de Futebol embarcou para as copas do Mundo da Suécia (1958) e do Chile (1962), retornando com os troféus de campeão.

A PANAIR deixou sua marca na historia da aviação brasileira como uma Empresa Aérea de excelência. Em seus vôos as refeições eram servidas em talheres de prata e taças de cristal. Era comum na época as pessoas se referirem a qualquer coisa relacionada a sofisticação com a expressão: “ Padrão Panair”.

Do auge a Decadência.

No dia 31 de Março de 1964, através de um Golpe de Estado, os militares assumem o poder da Nação e começa a mudar a história desta Empresa que muito contribuiu para o desenvolvimento da Aviação Aérea Brasileira com reflexos no cotidiano dos moradores do Campeche.

Em 1965, o então Presidente do Brasil, General Humberto Castelo Branco, suspende a autorização dos vôos nacionais da PANAIR sob o argumento de que a Empresa estava falida e não conseguiria mais cumprir com seus compromissos. A Mesma já havia enfrentado uma greve de seus funcionários por atraso de pagamentos. Além disto o governo desejava nacionalizar totalmente a operação da aviação aérea, se desvinculando de toda e qualquer influência externa. As rotas internacionais são transferidas para a Empresa CRUZEIRO DO SUL e as nacionais para a VARIG (Viação Aérea Riograndense) que foi a grande beneficiaria deste processo.

A PANAIR ainda tenta mudar o quadro entrando com uma ação judicial de concordata e recuperação financeira, na busca de retomada de seus serviços. Mesmo comprovando capacidade de recuperação, haja visto que seu patrimônio era muito maior do que suas dívidas não obteve êxito. O então Ministro da Aeronáutica, Brigadeiro Eduardo Gomes se posiciona contrariamente e a solicitação pretendida pela PANAIR foi indeferida (negada) pelo poder judiciário.

E assim a Empresa fica definitivamente proibida de operar no Brasil, sendo parte incorporada por outras Companhias, deixando milhares de pessoas desempregadas.

O terreno do Campeche onde fora construída a casa da Estação de Telégrafo e Armazenamento de baterias, conforme mencionado anteriormente, pertencia ao Senhor Antero Pamplona e o uso se dava por um contrato de aluguel. O mesmo volta para as mãos de seu antigo dono, com as devidas construções e suas benfeitorias. Antero vende a propriedade para o Doca Antunes, pai do Erasmo Antunes próspero comerciante do Ribeirão da Ilha. Doca Antunes desmancha a casa dos fundos levando o material de demolição para sua casa no Ribeirão da Ilha, e vende então a propriedade para o Senhor Domingos José da Cruz (Domingão), em meados de 1966.

Somente em 1984 o STF (Supremo Tribunal Federal) decreta fraudulenta a falência obrigando a União a ressarcir a PANAIR, beneficiando os funcionários com a massa falida. Mesmo com a vitoria na justiça até hoje a discussão permanece pois os valores do ressarcimento continuam controversos, assim como os reais motivos que levaram a decretação da falência.

Muitos aeroportos do Brasil foram construídos em cima das terras da Panair e até mesmo com seu capital, principalmente no governo de Jucelino Kubiticheck de 1956 a 1960.

A marca desta Companhia nunca saiu do imaginário popular dos moradores mais antigos do Campeche e costumeiramente deparamos com alguém mencionando a Empresa como local de trabalho de seu pai ou avô. Muitas ruas do bairro, são registradas homenageando tanto a PANAIA como a Aviação Francesa e a mais conhecida é a avenida principal denominada de Pequeno Príncipe, lembrando a Obra de Antonie Saint Exupery.

Finalizando: na região do bairro Carianos, próximo ao Aeroporto Internacional Hercílio Luz, em terras ocupadas pertencentes à PANAIR, estabeleceu-se uma comunidade de baixa renda denominada de Comunidade da Panaia e reconhecida somente em 2003 quando a União desiste do processo de reintegração de posse intermediado pela Prefeitura e a Organização da Comunidade.

Na década de 1990 os taiferos da Base Aérea de Florianópolis constroem no Campeche em terras do antigo campo de aviação francesa ( Air France), um clube social denominado de Clube dos Taifeiros Catalina em homenagem ao hidroavião da PANAIR de nome Catalina (Catalizador).

Texto: Hugo Adriano Daniel – Professor/Historiador - [email protected]

Foto Seu Maneca do Anazario: Arquivo pessoal da família.
Demais fotos Google.

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