Como o que eu como pode mudar o futuro?

Há uns dias li uma entrevista do Estadão com a Paola Carosella (a chefe argentina, charmosa, do Master Chef) na qual ela comenta: “Comer é um ato político. Quando você escolhe entre uma lasanha congelada e um quilo de tomates, escolhe a quem dá poder”¹. Pois é, quanta grandiosidade contida em tão poucas palavras! A partir do momento em que nós deixamos de produzir nosso próprio alimento e passamos a ser consumidores, tornamo-nos parte fundamental de um sistema engendrado sob a luz de um sistema baseado em lucro. Quer gostemos, quer não, diante das escolhas racionais e econômicas de custos e lucros, algumas noções de saúde, meio ambiente e coletividade são deixadas em segundo plano. 

Mas como o que eu como, aqui no meu cantinho no Sul da Ilha, pode interferir neste cenário globalizado da produção de alimentos? Bem, vou utilizar como guia os “17 Objetivos para um Desenvolvimento Sustentável”, estipulados pela ONU (Organização das Nações Unidas). Trata-se de um acordo firmado entre 192 países², no último dia 25 de Setembro, que determinou metas a serem atingidas de forma conjunta no Planeta até o ano de 2030, no intuito de pararmos de estragá-lo. Vamos às metas:

Comecemos pela (1) erradicação da pobreza. Pois bem, em torno de 50% da pobreza extrema do Brasil está no meio rural e 46% das pessoas que vivem no campo estão enquadradas na faixa da pobreza*. Isso demonstra a importância das políticas públicas e da concretização de (17) parcerias para as metas que contemplem este ambiente e suas particularidades, possibilitando a (10) redução da desigualdade, uma vez que é dali que serão providos os elementos básicos diante da (2) erradicação da fome, ou seja, os alimentos. E, por certo, o primeiro passo a ser dado em busca de um sistema que proporcione (3) saúde de qualidade é o consumo de alimentos frescos, saudáveis e de qualidade.

Sendo assim, o homem do campo precisa ter condições dignas de produção, que o mantenham no campo. Perdão pelo vício de linguagem: Quando falo “o homem” não estou excluindo a mulher do campo. Ela é fundamental e seu papel deve ser enaltecido e valorizado, no intuito evidente e indispensável da obtenção de (5) igualdade de gênero. São eles que possuem atributos culturais e conhecimento específico para suprir as demandas alimentares de um mundo que se tornou tão urbano. A manutenção destes importantes agentes em seu lugar de origem cursa com (8) empregos dignos e crescimento econômico.

O que me faz pensar: Será que o modelo agronegocial clássico adotado atualmente pode proporcionar isso? Será que a emancipação do produtor diante das pressões da agropecuária industrial, aproximando a produção do consumo e reduzindo o percurso do campo à mesa, não pode impulsionar a economia local e o desenvolvimento em geral? Além dos alimentos mais frescos, com menos conservantes e que andam menos em caçambas de caminhões (característicos das cadeias produtivas alternativas e encurtadas), a estabilização de produtores de agricultura urbana, peri-hurbana e de “cinturões verdes” protege a natureza da especulação imobiliária e do avanço da selva de concreto, no legítimo papel – mesmo que muitas vezes involuntário - de guardiões (15) da vida sobre a terra e (14) debaixo d'água.

Ademais, talvez este modelo de produção que se reproduziu nos países em desenvolvimento, que possuem a função de provedores de alimento, está chegando ao seu esgotamento. Esta situação instalada não tem como pressupostos básicos as questões relacionadas à sustentabilidade, se distanciando das já identificadas atitudes em prol (13) do combate às mudanças climáticas e da busca por melhores condições de (6) água limpa e saneamento, intimamente vinculados às emissões gasosas, sólidas e líquidas de origem agroalimentar. Até a Igreja Católica, por meio do Papa Francisco (que, por sinal, parece ser um cara muito bacana) em sua Encíclica Laudato Si³, demonstrou como as diversas dimensões sociais e as instituições devem se preocupar com o meio ambiente, antes que seja tarde.

Mas não somente o meio rural deve se envolver. (11) Cidades e comunidades sustentáveis devem se consolidar como sendo estes o comum e não apenas os casos isolados apresentados no “Globo Repórter”. Nós consumidores, uma vez que somos parte da cadeia, devemos fazer nosso papel em busca de um (12) consumo responsável, que conheça a origem e as condições daquilo que ingerimos e mantenha a preocupação com aquilo que será descartado.

Um terço de todo o alimento produzido é desperdiçado ou perdido, e isso não pode continuar. Além dos desperdícios em níveis de consumo e comércio, perde-se muito alimento nas fases de produção, processamento e transporte, o que demanda aportes urgentes em (9) inovação e infraestrutura em todos os serviços aqui impactantes. E claro, aquela fração que se perde e não se pode minimizar sua quantidade pode se tornar insumo para obtenção de (7) energias renováveis, por meio de tecnologias já existentes (embora caras, devido à falta de interesse de quem decide).

Por fim, só existe uma forma de tirar das folhas de papel o que aqui foi citado: (4) Educação de Qualidade! Precisamos ter condições de refletir sobre o que comemos. Precisamos de informação e assimilação. (16) Paz e justiça são consequência.

 

REFERÊNCIAS

¹http://blogs.estadao.com.br/paladar/paola-e-o-respeito-pela-comida/

²https://www.youtube.com/watch?v=9nQblX1_z2M

³http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html

*http://www.iicabr.iica.org.br/publicacoes/serie-drs-vol-21

 

Por: Pedro Xavier da Silva