Entrevista: Teco Padaratz fala sobre surf e meio ambiente

Surf e meio ambiente sempre estiveram intimamente relacionados. Sou convicto em afirmar que o surf e suas variantes - bodyboard, windsurf, kitesurf, surf de peito (na verdade vejo este como o ancestral comum do filo) e todos os outros surfs - são as atividades humanas de maior troca, de maior contato, de maior observação da natureza e de suas belíssimas interações. Outros esportes também promovem uma ligação com a Terra, mas a força do oceano e o fato de ser berçário e incubadora da vida dão ao surf algo especial, ancestral. Estar na água é muito mais do que descer as ondas: é organizar pensamentos, entender ligações sutis, liberar endorfinas e ir para casa rindo à toa (aliás, não entendo e não apoio a estupidez e violência do localismo, não são surfistas). Essa vivência natural intensa que o surf proporciona, leva seus adeptos a desenvolverem um senso de preservação ambiental aguçado, uma vez que dependemos de praias limpas e de boas ondas para que os benefícios do esporte sejam mantidos.

Algum leitor mais detalhista pode estar prontamente questionando: “Ok, entendo que a limpeza das praias tenha a ver com meio ambiente e tal, agora, qualidade das ondas, o que tem a ver com preservação?”. A princípio, soa meio distante uma coisa da outra. Mas é verdade: ondas excelentes – como a direita do Campeche ou os salões azuis do Riozinho – podem ser alteradas ou tornarem-se lendas a partir da degradação ambiental das praias, causada pela ocupação humana desses ambientes.

É uma grande ameaça aos ambientes costeiros catarinenses - restingas, praias e costões - a ocupação desordenada e ilegal dessas áreas por construções particulares, sem as devidas autorizações dos órgãos ambientais responsáveis e das prefeituras. Em outras palavras, a principal ameaça às lindas praias de nossa costa nasce do desejo que temos de morar perto delas, muito perto – ameaça que se concretiza contando com um poder público geralmente inerte, e com o ultrapassado, mas ativo, jeitinho brasileiro. Um exemplo dessa combinação nociva foi notícia há pouco tempo na TV: a infinidade de obras sem licença no norte da ilha, a maioria delas com o mesmo engenheiro como responsável técnico, em locais sem a mínima infraestrutura ou em áreas protegidas por lei. Mas outros exemplos mais próximos podem ser citados, basta dar uma olhada na orla entre a Joaquina e o Morro das Pedras para perceber que muitas casas e condomínios estão onde não deveriam – próximos demais à faixa de areia da praia, sobre restingas bem preservadas e até na rocha nua dos costões.

Proponho, para entendermos melhor onde estamos inseridos ecologicamente, um breve mas informativo mergulho na restinga (cuja definição em sentido estrito não existe, variando de acordo com a abordagem utilizada - botânica, geológica, geográfica, ecológica, etc.). Mas antes, contaremos com uma presença ilustre do mundo do surf: Teco Padaratz, relatando suas impressões a respeito da qualidade das ondas ao longo dos anos – também das praias e da água, além de deixar um recado para todos sobre preservação ambiental. Consultoria de altíssimo nível, cedida gentilmente em entrevista ao Portal Ducampeche.

Vamos lá? Será uma verdadeira session de conhecimento sobre o lugar onde vivemos. E mais um passo na busca por equilíbrio ecológico, qualidade de vida, cidadania e, principalmente, uma boa herança para as futuras gerações.

 

Entrevista com Teco Padaratz:

DuCampeche: De um modo geral, você nota alguma diferença entre as ondas de 10 ou 20 anos atrás e as de hoje, aqui em Florianópolis?
Teco:  Sim, eu noto. Na Joaquina, por exemplo, as ondas do inside eram bem mais fortes e maiores, ou seja, era um pouco mais funda a bancada. Já as do outside só quebravam com 1,5 m pra mais.

DuCampeche: Aponte mudanças, se houveram, nas seguintes características das ondas aqui da Ilha: tamanho, qualidade/formação, frequência dos swells:

Teco: 
tamanho: Não, acho que tamanho continua o mesmo. Variando de ano pra ano, mas sempre indo e voltando.

qualidade/formação: Aqui mudou um pouco. As dunas estão invadindo a praia por causa de falta de restinga em alguns lugares. Afinal, é a restinga que segura a areia da praia. Em alguns casos como no próprio Campeche, as ondas do outside estão mais gordas e o Riozinho ao contrário, está mais cavado. 

frequência dos swells: Antigamente dava mais ondas no verão, isso dá pra notar. Inclusive alguns dos melhores campeches que peguei foram no verão, com ondulação de sul. Hoje em dia isso é mais raro.

DuCampeche: Qual a praia de Florianópolis (ou da região) que apresentou a maior mudança, ao longo dos anos, na qualidade de suas ondas?
Teco: Acho que a maior mudança foi na Joaquina. Mas não diria que piorou, apenas mudou bastante a sua característica em geral. Hoje temos mais ondas no outside, e antigamente se surfava muito mais no inside.

DuCampeche: A que fator(es) você atribui essa mudança?

Teco: Expliquei antes: como temos muitas construções na beira desta praia, a areia da praia não segura mais e voa com o vento predominante (nordeste) pro fundo do mar, tornando o outside mais raso.

DuCampeche: Você lembra de alguma onda/pico que deixou de quebrar em decorrência de mudanças no fundo? (se não houver nenhuma aqui na região, pode citar praias ao redor do mundo, para ilustrar)
Teco: Bom, aqui na ilha a mudança mais drástica foi na praia da Daniela, afinal aquele pontal que tinha antigamente praticamente desapareceu. Já no planeta, uso bastante o exemplo da onda de Rags, em Mentawai - após o último terremoto seguido de tsunami lá na região, essa onda praticamente não existe mais, pois o fundo do mar subiu cerca de 2 metros. Eu considerava a melhor onda de Mentawai, agora mal dá pra cair, sobrou apenas a primeira e segunda sessão, havia mais quatro sessões que se interligavam.

DuCampeche: Em beach breaks em lugares isolados e preservados, ao redor do mundo, você também observa esses declínios na qualidade das ondas - refletindo a sazonalidade do mar - ou trata-se de um fenômeno
diretamente relacionado aos padrões de exploração que o homem utiliza?
Teco: Acho que os principais picos estão preservados, salvo esta situação na Indonésia. Mas mesmo lá, as coisas mudaram pra melhor em alguns picos, e um deles é Nias, que antigamente era uma onda tranquila e agora é quase um Teahupoo pra direita. O que mudou muito no Brasil foi a qualidade da água. Isso está piorando a cada ano, drasticamente. No Quebra-Mar do Rio de Janeiro, está muito perigoso surfar em dias de chuva. No Nordeste isso ainda piora, nos grandes centros. Muito lixo na rua que voa ou escorre pro mar.

DuCampeche: Por último, um espaço para dar um recado seu ao poder público e ao pessoal de casa, sobre meio ambiente, respeito, cidadania, coletividade, enfim... Sinta-se livre para falar.
Teco: Bom, acredito que, como surfista, posso dizer que somos abençoados com a presença tão linda da natureza - porém estou percebendo que as praias estão sumindo, não as ondas em si, mas as praias. Elas estão se tornando um lugar igual aos centros de cidades grandes, enquanto nós pensamos nelas como lugares paradisíacos pra relaxar e curtir. A qualidade da água do mar está caindo a cada dia. Reparo que se não cuidarmos disso, em alguns lugares será proibido surfar, assim como em Recife por causa dos tubarões, mas agora por causa da água suja. Isso é vergonhoso!!! Do que adianta dizermos pra todos que temos o campeão do mundo, se somos os piores poluidores de praia do mundo, ao mesmo tempo. É duro conviver com isso e se sentir solitário nesta luta. 

 

Conclusão:

Sem dúvida, o surf contém saberes. Mesmo não sendo um ambientalista de profissão, nosso consultor apresentou conhecimento técnico relativo aos assuntos abordados – demonstrando que, naturalmente, pesquisamos aquilo de que gostamos. Confesso ter ficado um pouco menos angustiado com o fato das mudanças ainda não serem tão alarmantes na qualidade das ondas. Mas elas existem, sim. As alterações parecem estar ocorrendo lentamente nesse sentido, mas de maneira constante, o que pode significar prejuízos maiores em futuros mais distantes – exceto em Daniela, onde as coisas mudaram bastante. Já a questão da poluição mostrou-se muito preocupante. Não podemos mais fazer vista grossa para esse assunto, pois realmente está ficando inviável em algumas localidades. Isso afeta não só o dia-a-dia dos moradores, mas também causa um grande revés ao turismo, um importante pilar da economia catarinense. Todo esse problema do lixo e da contaminação das águas, discutiremos nas próximas publicações – pois há bastante coisa a ser falada. Finalmente, destaco a indicação muito acertada das construções que avançam sobre a restinga e a destroem, como sendo causadoras de um tipo muito sério de degradação ambiental em nossas praias.

Parabéns pela consciência ecológica, Teco, e obrigado pela entrevista – o convite para falar aqui está sempre de pé.

 

Mas, o que é mesmo restinga?

Restinga, no sul do Brasil, são deposições de sedimentos arenosos paralelas ao mar, formando dunas e suaves depressões, podendo ou não ser cobertas por vegetação. Onde ocorre, a vegetação apresenta-se em mosaicos (em função da drenagem do solo), conferindo à restinga uma grande variedade de ambientes distintos e criando uma miscelânea de ecossistemas que se comunicam e interagem. Interações ecológicas importantes ocorrem também com a floresta pluvial adjacente (os belos morros verdinhos que circundam a Planície do Campeche, como o Morro do Lampião, por exemplo), tornando a restinga um ambiente peculiar na manutenção e no equilíbrio da biodiversidade local – que, no caso, é das maiores do mundo, considerando que estamos encravados na Mata Atlântica.

 

A restinga catarinense abriga cerca de 30 espécies vegetais raras, endêmicas (que só ocorrem naquele local) ou ameaçadas de extinção. Além disso, é um local que serve para pouso e descanso de aves migratórias, sendo também local de alimentação e nidificação para aves residentes e incontáveis espécies da fauna. Tudo isso, essa explosão de vida, ocorre sobre um chão de areia. Ao empurrarmos nossas casas para cada vez mais perto do mar - porque realmente são lugares lindos para morar - a vegetação da restinga é retirada. Mas sua função primordial, além daquelas ecológicas descritas acima, é a de fixadora de dunas. Isso é muito importante para o nosso bem-estar. A areia livre, com a ação dos ventos, voa e se deposita artificialmente em lugares onde não se depositaria se houvesse vegetação. O fluxo natural e equilibrado dos grãos é interrompido; então, aparecem os problemas, seja o mar avançando sobre a faixa de areia e acabando com a praia (triste exemplo na Armação) ou as bancadas do fundo do mar sendo modificadas, alterando também a formação das ondas. Assim, fica claro porque proteger a restinga é tão importante; o problema é que a Planície do Campeche é, basicamente, uma grande restinga que se transforma gradativamente em floresta pluvial. A rigor, quase tudo é protegido por lei. Na prática, a lei não está protegendo quase nada.

 

Legalmente, a restinga é protegida pelo Código Florestal, que a define como área de preservação permanente, ou APP (lei federal, L 12651); pela Lei da Mata Atlântica, por ser considerada integrante desse bioma (lei federal, L 11428); e, aqui, pelo Plano Diretor de Florianópolis (lei municipal, LC 482) - por exemplo. Mesmo assim, continua sendo sistematicamente devastada, parcelada e vendida, através da interpretação errônea dessas leis, ou de sua não aplicação. Quer ver uma maneira como isso acontece? Bem, ao ser considerada APP pelo artigo 4 do Código Florestal, a restinga não deveria receber nenhum tipo de edificação após a publicação da lei, exceto para fins de utilidade pública, interesse social ou atividades de baixo impacto ambiental. Inclusive, quem suprime vegetação em APP, após a lei e sem autorização, é obrigado a promover sua reconstituição. Mas outra lei, a da Mata Atlântica, abre um precedente, autorizando loteamentos e edificações em áreas urbanas onde a vegetação não é primária - isto é, não é intocada. Segundo o artigo 30, basta preservar 50% da vegetação existente, se for uma vegetação bem conservada. Este acabou se tornando o mote da campanha publicitária de um dos condomínios na Costa Leste, há uns tempos atrás: você irá morar em um lugar com x hectares de mata nativa preservada, contato com a natureza, blá, blá, blá. Só faltou falar a verdade toda na propaganda: que a mesma quantidade de hectares seria desmatada. Mas aí fica difícil vender né... Também faltou o órgão ambiental que forneceu a licença aplicar integralmente a mesma lei, que veda qualquer possibilidade de construção em local cuja vegetação tenha função de estabilizadora do solo ou de protetora de manancial (artigo 11). O que houve então? Tenho certeza de que não foi desconhecimento da lei por parte do órgão ambiental. Deve ser outra coisa, a mesma que parasita a economia do país, favorece quem tem mais recursos e nos deixa bastante indignados.

 

Outra situação muito comum que contribui para o avanço imobiliário sobre as praias, é que muitas terras no litoral catarinense foram adquiridas há várias décadas, sendo passadas de geração em geração. Esse processo leva a desmembramentos da terra, em situações de partilha de herança; aí cada um faz o que bem entende com sua parte, e muitos decidem pela venda. Algumas dessas glebas estão em locais de ocupação consolidada, com viabilidade de construção.  Por outro lado, muitos lotes estão situados em áreas bem preservadas e APPs, o que atrai ainda mais o voraz capital externo, pois Floripa e seus belos cenários naturais (de preferência exclusivos) tornaram-se grandes oportunidades de negócio. As ofertas são bem tentadoras, difícil de resistir, ainda mais com essa crise. Mas, assim como não se caçam mais baleias e não se cortam mais canelas pretas centenárias, também não deveríamos construir sobre a restinga preservada que resta, nem vender um patrimônio tão importante a quem quer praticar tal crime ambiental. Existe uma regra para o uso do solo, existem dispositivos para que isso ocorra legalmente, baseados em critérios técnicos e que compõem uma legislação avançada – mesmo com algumas brechas. Resta agora que as leis sejam usadas em benefício de todos, protegendo o direito coletivo ao meio ambiente equilibrado – e não interesses particulares, através de interpretações sofistas e parciais, movidas a dinheiro.

 

Outra vez, as mudanças que queremos e as conquistas que almejamos, tem de ser buscadas por nós. Nesse caso, tudo tem início a partir da consciência ecológica e do conhecimento. 

 

Foto: LioSimas

Texto e Entrevista: Fernando Name